Perimenopausa e cérebro: você não está imaginando

Esquecer palavras, perder o foco, dormir mal. Isso não é fraqueza, é biologia. E entender o que acontece diminui a culpa.

Núbia Paixão

Psicóloga, neurocientista e neuropsicóloga
CRP 09/010263


Publicado em

4 min de leitura

Núbia Paixão sorrindo, de blusa preta, no consultório.

Você entra na cozinha e esquece o que foi buscar. No meio de uma reunião, a palavra some, bem aquela que você usa todos os dias. Você relê o mesmo parágrafo três vezes e ele não fica. À noite, acorda às três da manhã e o sono não volta.

E aí vem o pensamento: o que está acontecendo comigo?

Ouço esse relato com frequência, quase sempre dito com vergonha. Muitas mulheres acham que estão ficando desatentas, que perderam a capacidade de antes, que precisam se esforçar mais. Poucas sabem que essas mudanças podem ter nome.

Não é só o ciclo que muda

A perimenopausa é a fase de transição que antecede a menopausa. Ela pode começar alguns anos antes da última menstruação, muitas vezes por volta dos 40, e cada mulher vive esse período de um jeito.

A gente costuma associar essa fase ao ciclo irregular e aos calores. Mas a perimenopausa não afeta apenas o ciclo menstrual. Ela também pode impactar o funcionamento do cérebro.

Na rotina, isso aparece de formas bem concretas:

  • palavras que somem no meio da frase;
  • mais dificuldade para manter o foco;
  • esquecimentos que antes não aconteciam;
  • sono mais leve e interrompido;
  • oscilações de humor e mais irritabilidade.

Você não está imaginando.

O que muda no cérebro

O estrogênio não atua só no sistema reprodutor. A literatura tem mostrado que ele também participa do funcionamento de regiões do cérebro ligadas à memória, à atenção, ao sono e à regulação do humor.

Na perimenopausa, os hormônios não caem de forma linear. Eles oscilam, às vezes bastante, de um mês para o outro. Estudos sugerem que é justamente essa instabilidade que o cérebro sente: ele precisa se reorganizar diante de uma mudança que não acontece de uma vez.

Some a isso noites mal dormidas, e o efeito se acumula. Sem sono reparador, fica mais difícil se concentrar, lembrar e lidar com as emoções.

Isso não é fraqueza. É biologia.

Estudos sugerem também que, para muitas mulheres, essas dificuldades cognitivas tendem a se estabilizar depois da transição. O cérebro se adapta. Ele não está quebrado; está em processo.

Informação gera consciência. E consciência diminui a culpa.

O peso que vem junto

Essa fase raramente chega sozinha. Ela costuma coincidir com um momento da vida em que você sustenta muita coisa: filhos crescendo, pais envelhecendo, trabalho exigente, uma casa que depende de você.

Então, quando a memória falha, a reação mais comum é a cobrança. “Eu era tão organizada.” “Como deixei isso passar?” A mulher que sempre deu conta passa a duvidar de si mesma.

É aqui que entender faz diferença. Quando você sabe que o seu cérebro está atravessando uma mudança real, a pergunta deixa de ser “o que há de errado comigo?” e passa a ser “do que eu preciso agora?”.

Talvez de mais pausas. Talvez de anotar mais, sem vergonha disso. Talvez de dividir tarefas que você carrega sozinha.

Quando procurar ajuda

Se essas mudanças estão atrapalhando o trabalho, as relações ou o seu bem-estar, procure acompanhamento. A ginecologista é quem avalia essa fase, investiga outras causas possíveis (como alterações de tireoide, anemia ou deficiências nutricionais) e conversa com você sobre as opções de cuidado.

O acompanhamento psicológico caminha junto. A terapia é um espaço para lidar com as oscilações de humor, a autocobrança e a relação com um corpo que está mudando. E, quando os esquecimentos geram muita preocupação, uma avaliação neuropsicológica pode ajudar a entender o que está acontecendo com mais clareza.

Se a tristeza ficar intensa ou persistente, ou se surgirem pensamentos de desistir de tudo, não espere: busque ajuda profissional. Em momentos de crise, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.

Essa fase também é uma metamorfose. E você não precisa atravessá-la sozinha.

E você, tem percebido mudanças assim e se culpado por elas?

Se fez sentido para você, envie para alguém especial.

Perguntas frequentes

A perimenopausa pode afetar a memória?

Pode, sim. Muitas mulheres percebem esquecimentos, palavras que somem e mais dificuldade de concentração nessa fase. Estudos sugerem que as oscilações hormonais influenciam o funcionamento do cérebro, e para muitas mulheres essas mudanças tendem a se estabilizar com o tempo.

Quando começa a perimenopausa?

Costuma começar alguns anos antes da última menstruação, muitas vezes por volta dos 40 anos, mas varia bastante de mulher para mulher. Quem confirma e acompanha essa fase é a ginecologista.

A terapia ajuda na perimenopausa?

Pode ajudar, sim. A psicoterapia não substitui o acompanhamento médico, mas oferece escuta para lidar com as mudanças de humor, a autocobrança e a nova relação com o próprio corpo. É um espaço para atravessar essa fase com mais consciência e menos culpa.

Se esse texto falou com você, a gente pode conversar com calma.

Consultas online e presenciais em Anápolis/GO.

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